Archive for the 'MPB' Category

08
mar
10

O que penso de todas vocês

Tomando emprestada a idéia de Vinicius, vocês, mulheres, na sua incalculável imperfeição, são a coisa mais bela e mais perfeita de toda a criação inumerável.

A minha admiração por vocês é absoluta.

E hoje é apenas a coroação dos outros 364 dias do ano, que são todos e sempre seus.

Rosa (Pixinguinha/Otavio de Souza)

Tu és, divina e graciosa
Estátua majestosa do amor
Por Deus esculturada
E formada com ardor
Da alma da mais linda flor
De mais ativo olor
Que na vida é preferida pelo beija-flor
Se Deus me fora tão clemente
Aqui nesse ambiente de luz
Formada numa tela deslumbrante e bela
Teu coração junto ao meu lanceado
Pregado e crucificado sobre a rósea cruz
Do arfante peito seu

Tu és a forma ideal
Estátua magistral oh alma perenal
Do meu primeiro amor, sublime amor
Tu és de Deus a soberana flor
Tu és de Deus a criação
Que em todo coração sepultas um amor
O riso, a fé, a dor
Em sândalos olentes cheios de sabor
Em vozes tão dolentes como um sonho em flor
És láctea estrela
És mãe da realeza
És tudo enfim que tem de belo
Em todo resplendor da santa natureza

Perdão, se ouso confessar-te
Eu hei de sempre amar-te
Oh flor meu peito não resiste
Oh meu Deus o quanto é triste
A incerteza de um amor
Que mais me faz penar em esperar
Em conduzir-te um dia
Ao pé do altar
Jurar, aos pés do onipotente
Em preces comoventes de dor
E receber a unção da tua gratidão
Depois de remir meus desejos
Em nuvens de beijos
Hei de envolver-te até meu padecer
De todo fenecer
“.

© Cartas de Tiro

22
set
09

Obra-prima

Canção Amiga (Carlos Drummond de Andrade/Milton Nascimento)

Eu preparo uma canção
Em que minha mãe se reconheça
Todas as mães se reconheçam
E que fale como dois olhos

Caminho por uma rua
Que passa em muitos países
Se não me vêem, eu vejo
E saúdo velhos amigos

Eu distribuo um segredo
Como quem ama ou sorri
No jeito mais natural
Dois carinhos se procuram

Minha vida, nossas vidas
Formam um só diamante
Aprendi novas palavras
E tornei outras mais belas

Eu preparo uma canção
Que faça acordar os homens
E adormecer as crianças
“.

(Álbum: “Clube da Esquina 2”, de Milton Nascimento, 1978)

Clube da Esquina 2

© Cartas de Tiro

08
jul
09

Estão cravadas!

Trata-se de uma linda letra.

Uma situação tão corriqueira na seara do amor.

Dos Cruces (Carmelo Larrea)

Sevilla tuvo que ser
Con su lunita plateada
Testigo de nuestro amor
Bajo la noche callada
Y nos quisimos tu y yo
Con un amor sin pecado
Pero el destino ha querido
Que vivamos separados

Estan clavadas dos cruces
En el monte del olvido
Por dos amores que han muertos
Sin haberse comprendido
Estan clavadas dos cruces
En el monte del olvido
Por dos amores que han muertos
Qui son el tuyo y el mio

Oh! Valle de Santa Cruz
Oh! Puerto de Doña Elvira
Os vuelvo yo a recordar
Y me parece mentira
Ya todo aquello pasó
Todo quedó en el olvido
Nuestra promesas de amores
En el aire se han
perdido“.

Milton Nascimento, no soberbo “Clube da Esquina” (o nº 1, 1971), fez uma interpretação inesquecível.

Um vídeo com o trespontano (que toma cores de um verdadeiro flamenco), com a participação do seu conterrâneo Wagner Tiso:

19
jun
09

Nesta data, em 1944

Hoje faz 65 anos que Chico Buarque de Hollanda veio ao mundo.

Trata-se de um gênio.

Aqui, uma de suas mais belas canções, composta em parceria com Ruy Guerra: “Fado Tropical”, do disco “Chico Canta” (1973). Os “versos” são magistralmente declamados por Ruy.

A mensagem do que ainda não aconteceu – infelizmente.

Capa original do disco

Oh, musa do meu fado
Oh, minha mãe gentil
Te deixo consternado
No primeiro abril

Mas não sê tão ingrata
Não esquece quem te amou
E em tua densa mata
Se perdeu e se encontrou
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal

‘Sabe, no fundo eu sou um sentimental
Todos nós herdamos no sangue lusitano uma boa dosagem de lirismo (além da sífilis, é claro)*
Mesmo quando as minhas mãos estão ocupadas em torturar, esganar, trucidar
Meu coração fecha os olhos e sinceramente chora…’

Com avencas na caatinga
Alecrins no canavial
Licores na moringa
Um vinho tropical
E a linda mulata
Com rendas do alentejo
De quem numa bravata
Arrebata um beijo
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal

‘Meu coração tem um sereno jeito
E as minhas mãos o golpe duro e presto
De tal maneira que, depois de feito
Desencontrado, eu mesmo me contesto

Se trago as mãos distantes do meu peito
É que há distância entre intenção e gesto
E se o meu coração nas mãos estreito
Me assombra a súbita impressão de incesto

Quando me encontro no calor da luta
Ostento a aguda empunhadora à proa
Mas meu peito se desabotoa
E se a sentença se anuncia bruta
Mais que depressa a mão cega executa
Pois que senão o coração perdoa’

Guitarras e sanfonas
Jasmins, coqueiros, fontes
Sardinhas, mandioca
Num suave azulejo
E o rio Amazonas
Que corre trás-os-montes
E numa pororoca
Deságua no Tejo
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um império colonial
“.

*Trecho original, vetado pela censura.

E, aqui, uma ótima análise da canção.

05
jun
09

Auto-Retrato

Alucinação (Belchior)

 

Eu não estou interessado em nenhuma teoria

Em nenhuma fantasia, nem no algo mais

Nem em tinta pro meu rosto ou oba-oba ou melodia

Para acompanhar bocejos, sonhos matinais

Eu não estou interessado em nenhuma teoria

Nem nessas coisas do Oriente

Romances astrais

A minha alucinação é suportar o dia-a-dia

E meu delírio é a experiência com coisas reais

 

Um preto/um pobre/um estudante/uma mulher sozinha/

Blue jeans e motocicletas/pessoas cinzas normais/

Garotas dentro da noite/revólver: ‘cheira cachorro’

Os humilhados do parque com os seus jornais/

Carneiros/mesa/trabalho/meu corpo que cai do oitavo andar/

A solidão das pessoas nessas capitais/

A violência da noite/o movimento do tráfego/

Um rapaz delicado e alegre que canta e requebra/É demais?/

Cravos/espinhos no rosto/rock/hot dog/play it cool, baby

Doze jovens coloridos…

Dois policiais cumprindo o seu duro dever

E defendendo o seu, amor. É nossa vida

Cumprindo o seu duro dever e defendendo o seu, amor

Eh, nossa vida

  

Mas eu não estou interessado em nenhuma teoria

 

Em nenhuma fantasia, nem no algo mais

Longe o profeta do terror que a laranja mecânica anuncia

Amar e mudar as coisas me interessa mais“.

 

© Cartas de Tiro

22
maio
09

Zé Rodrix, num show com Tavito

Blue Riviera (Zé Rodrix/Luiz Carlos Sá e Guarabyra) – Terra – 1973

A gente já era uma barra no tempo do rock no blue riviera
A gente já era, no tempo blue riviera
Você com seu rabinho de cavalo, me contando que a sua mãe
Não lhe deixava sair
Na garupa da lambreta pra dançar no blue riviera
A gente sacudia os ossos no tempo do rock do blue riviera
A gente sacudia, no rock do blue riviera
Com toda essa moçada da pesada que hoje está com 30 anos ou mais
E já não deixa cair
Como no tempo da lambreta sem saia no blue riviera
Eu digo blue riviera, blue riviera, nos meus olhos e ouvidos
Da sala enfumaçada pr’onde foram meus amigos queridos
Eu digo blue riviera, blue riviera, o pão, a carne, o sangue, o vinho
No meio das lembranças do passado eu não estou sozinho…
“.

25
mar
09

João Cândido Felisberto

Dia desses, antes de um curto – mas, creio, merecido – recesso, quando aportei em Fortaleza/CE, novamente minha querida cunhada Rita, por telefone, me deu conta de um lindo artigo postado há algum tempo por Rodrigo Vianna, no seu blog “Escrevinhador”, acerca de João Cândido, um marinheiro que, em 1910, comandou a famosa “Revolta da Chibata“, movimento de resistência que se opôs à continuidade da aplicação de castigos físicos impostos pela nossa Marinha. A regra: “Para as faltas leves, prisão e ferro na solitária, a pão e água; faltas leves repetidas, idem idem por seis dias; faltas graves 25 chibatadas”.

Pelo artigo tomei conhecimento que o grande letrista Aldir Blanc contou a história desse verdadeiro herói nacional (que foi homenageado por Lula com uma estátua), em mais uma brilhante parceria com João Bosco, por intermédio da canção “O Mestre-Sala dos Mares”.

E ali soube mais: a letra original foi devidamente censurada pela soldadesca que tomou por golpe o Estado brasileiro, em 1964.

Realmente um post de finíssimo conteúdo, que vale a pena ser lido e pelo qual rendo minhas homenagens a Rodrigo Vianna. Aqui, a sua íntegra.

Um vídeo, que conta com a indelével interpretação musical de João Bosco:




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