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Recado para o meu Avô

“SP, 2/10/2009

Oi, Vô!

noite passada sonhei com você.

Passados tantos anos, esta foi a primeira vez que isso aconteceu – lamento com sinceridade que tenha sido apenas a inaugural, notadamente diante da imensa importância que você teve na minha vida e da falta que você faz. Mas a gente não tem controle sobre o que quer ou não sonhar…

Não foi propriamente um sonho feliz – afinal, o momento retratado era o da sua ida.

Eu estava tão triste, Vô. Inconformado mesmo, sem dúvida pelo egoísmo – que considero natural – da certeza de não tê-lo mais por perto.

No finalzinho do sonho, eu ainda chorando muito, como que por mágica, diante de todos nós, você se senta e pergunta: ‘Eu gostava tanto de cantar, de recitar… Posso fazer isso uma última vez?’. É claro que pode!’ foi a resposta geral. E você, com seus laterais cabelos brancos meio desarrumados (como eu gostava tanto de ver), se levanta e desanda a recitar algo de que não me lembro, mas eram palavras lindas. No término, aplausos muito emocionados.

Acordei.

Tomando emprestadas as palavras de Vinicius, quando escreveu sobre o passamento de Antônio Maria (na espetacular crônica “Morrer num bar“), despertei sentindo a sua morte enorme dentro de mim, Vô.

Mas o final do sonho foi tão emblemático, foi tão ‘você’, que o sentimento de tristeza foi dando lugar às saborosas lembranças dos quase 30 anos em que convivemos (para mim foi muito pouco tempo, Vô – olha eu, egoísta de novo). Por exemplo, de quando, ainda bem menino, lá na nossa casa, acordava cedo e ia até a cozinha, que já estava sob o seu domínio, e lhe pedia para que contasse como eram as coisas ‘quando você era pequeno’. O que você fazia,  sempre com riqueza de detalhes e com a paciência que só é dada aos avós.

E, até por conta do desfecho do sonho, me lembrei também de você cantando as músicas de que tanto gostava, as napolitanas ‘Core ‘ngrato‘, ‘Torna a Surriento‘ etc. – canções da terra do teu pai.

Estou com você na cabeça durante todo o dia. Por isso é que resolvi escrever.

E também para deixar registrado para sempre que você é uma das poesias da minha vida.

Saudades sempre, Vô!

João”

© Cartas de Tiro

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9 Responses to “Recado para o meu Avô”


  1. outubro 3, 2009 às 09:47

    Lindo, João!

    Sensível, poético, mas, sobretudo, verdadeiro. Felizmente nossa alma nos transporta no tempo com muito mais facilidade do que a gente percebe.E, nessas horas, a memória é sua aliada.A unica pena que fica é saber que ,no momento do real acontecido, a gente não tenha noção de quanto aquilo pode ser fundamental em nossa história.

    Mas, saudade é a presença da ausência. Que bom a gente poder voltar, mesmo sendo na lembrança!

    E , melhor ainda, sair da aridez do cotidiano para entrar no mundo sensível,onde tudo é permitido, até nosso avô voltar.

    Beijos e bom fim de semana.

    • outubro 4, 2009 às 13:13

      Gizelda

      De fato, só nos damos conta das maravilhas da memória no futuro. E o que relatei é o exemplo exato disso.

      Passei dois dias basicamente emocionado. Bateu uma saudade enorme…

      Boas lembranças.

      Querida, super obrigado por seu comentário.

      Beijo.

  2. 3 JC
    outubro 3, 2009 às 13:03

    Eu passei aqui mais cedo e tive vontade de fazer um comentário, nem que fosse só para dar os parabéns pelo post tão bonito. Não tive coragem: o texto parecia muito pessoal, e qualquer comentário que eu fizesse poderia soar intrometido ou impertinente.

    MAS, já que a colega acima inaugurou os comentários, não vou mais resistir. Muito bonito o texto, João. rs

    Acho muito bacana essa relação forte que algumas pessoas têm com seus avós. Todos os meus avós ainda estão vivos, e eu nunca fui lá muito próximo deles (e vice-versa). Será que eu deveria fazer um esforço enquanto é tempo?

    Abraço

    • outubro 4, 2009 às 13:04

      Caro JC

      bem, pelo post você já pode perceber minha opinião.

      Se me permite, aproxime-se deles imediatamente!

      É uma relação diferente de qualquer outra que você estabeleça na vida.

      Obrigado mesmo por sua opinião.

      Abraço.

  3. outubro 13, 2009 às 12:44

    olha só, cheguei mais perto do bisa! lindo, tio joninho.

  4. 7 Alice
    outubro 20, 2009 às 14:15

    Que texto lindo! Chorei… Senti falta do meu vô!
    Fiquei sem palavras, lindo lindo, saiu diretinho do coração né?
    Parabéns!

    http://www.muitomelhorqueatuaex.wordpress.com

    • outubro 20, 2009 às 20:33

      Alice

      sem dúvida escrevi o texto com forte dose de emoção. Aliás, foi até meio difícil, em especial porque fiquei, mesmo, com muitas saudades do meu Vô.

      Super obrigado por sua opinião. E saiba que é sempre muito bom você passar por aqui.

      Beijo.

  5. 9 Luciana
    outubro 22, 2009 às 11:48

    Ainda que eu tenha lido em primeira mão, foi uma pena não ter sido a primeira a comentar o lindo texto que escreveu…
    Foi fascinante a maneira com a qual você expressou o amor dessa relação linda que teve com seu avô. Aliás, você é ímpar. Uma pessoa maravilhosa e apaixonante que deixa marcas por onde passa. Compartilhando afinidades, realizando sonhos e explorando a felicidade em toda a concepção da palavra.
    E farei uso, parafraseando seu texto, se me permite, dizendo que “também quero deixar registrado para sempre que você é uma das poesias da minha vida”.
    Amo você.


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