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Falta de equilíbrio

Mais uma vez Maria Rosália Tapajós fornece ao blog uma contribuição valiosa, pelo que lhe agradeço. Muitíssimo.

Quero aqui dizer que não faço qualquer apologia ao fumo; são evidentes e comprovados os seus malefícios.

O que devemos discutir são atitudes.

Vamos ao texto fornecido pela amiga Maria, de autoria de Luiz Felipe Pondé, que é colunista do caderno “Ilustrada”, da FSP, publicado no mesmo jornal no dia 7/8/2009.

Notável:

As freiras feias sem Deus

O que move as pessoas, em meio a tantos problemas, a dedicar tamanha energia para reprimir o uso do tabaco? Resposta: o impulso fascista moderno.

Proteger não fumantes do tabaco em espaços públicos fechados é justo. Minha objeção contra esta lei se dá em outros dois níveis: um mais prático e outro mais teórico.

O prático diz respeito ao fato de ela não preservar alguns poucos bares e restaurantes livres para fumantes, sejam eles consumidores ou trabalhadores do setor. E por que não? Porque o que move o legislador, o fiscal e o dedo-duro é o gozo típico das almas mesquinhas e autoritárias. Uma espécie de freiras feias sem Deus.

O teórico fala de uma tendência contemporânea, que é o triste fato de a democracia não ser, como pensávamos, imune à praga fascista.

A tendência da democracia à lógica tirânica da saúde já havia sido apontada por Tocqueville (século 19). Dizia o conde francês que a vocação puritana da democracia para a intolerância para com hábitos ‘inúteis’ a levaria a odiar coisas como o álcool e o tabaco, entre outras possibilidades.

Odiaremos comedores de carne? Proprietários de dois carros? Que tal proibir o tabaco em casa em nome do pulmão do vizinho? Ou uma campanha escolar para estimular as crianças a denunciar pais fumantes? Toda forma de fascismo caminhou para a ampliação do controle da vida mínima. As freiras feias sem Deus gozariam com a ideia de crianças tão críticas dos maus hábitos.

A associação do discurso científico ao constrangimento do comportamento moral, via máquina repressiva do Estado, é típica do fascismo. Se comer carne aumentar os custos do Ministério da Saúde, fecharemos as churrascarias? Crianças diagnosticadas cegas ainda no útero significariam uma economia significativa para a sociedade. Vamos abortá-las sistematicamente? O eugenista, o adorador da vida cientificamente perfeita, não se acha autoritário, mas, sim, redentor da espécie humana.

E não me venha dizer que no ‘Primeiro Mundo’ todo o mundo faz isso, porque não sou um desses idiotas colonizados que pensam que o ‘Primeiro Mundo’ seja modelo de tudo. Conheço o ‘Primeiro Mundo’ o suficiente para não crer em bobagens desse tipo.

O que essas freiras feias sem Deus não entendem é que o que humaniza o ser humano é um equilíbrio sutil entre vícios e virtudes. E, quando estamos diante de neopuritanos, de santos sem Deus, os vícios é que nos salvam. Não quero viver num mundo sem vícios. E quero vivê-lo tomando vinho, vendo o rosto de uma mulher linda e bêbada em meio à fumaça num bistrô“.

Jean/FSP

© Cartas de Tiro

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7 Responses to “Falta de equilíbrio”


  1. 1 mmqate
    agosto 20, 2009 às 22:43

    depois, se tiver saco e curiosidade… dá uma olhadinha:

    http://www.muitomelhorqueatuaex.wordpress.com

  2. agosto 24, 2009 às 23:57

    Andei pensando em alterar aquele logotipo da proibição do fumo…

    Fazer uma leitura pessoal..

    Colocar crianças com fome dentro daquele estado de São Paulo vermelho…
    Ou pessoas sem moradia…

    Preciso arranjar um webdesigner que me faça isso.

  3. 4 JC
    agosto 25, 2009 às 11:55

    Gostei muito do texto e do blog. Parabéns.

    • agosto 25, 2009 às 17:28

      Caro JC

      Quanto ao texto, na realidade TODOS os méritos são do Luiz Felipe Pondé, que o escreveu de forma brilhante.

      Quanto a este blog (e ao seu comentário), muito obrigado.

      E, claro, volte.

  4. setembro 24, 2009 às 05:49

    E assim o cidadão vai perdendo seus direitos, um a um…

    Mas, convenhamos, fumaça de cigarro é mesmo uma coisa horrível! As cidades ficam com uma aparência e um ar tão puro, que dá gosto! Há muito não temos carros nem caminhões velhos poluindo tudo, chegou a hora de se dar um jeito nesses fumantes criminosos. Ah, sem esquecer que alguma bituca poderia ser arrastada, assim num caso fortuito, numa chuva muito forte e muito mais por acaso ainda, talvez, essa chuva causasse uma enchente e a danada poderia ir parar num rio como o Tietê, por exemplo. Cruzes, nem pensar!

  5. fevereiro 10, 2010 às 00:29

    Olá, escrevo sobre o Pondé regularmente em meu blog: http://www.criticaparnasiana.blogspot.com

    o texto a seguir, algo polêmico, é uma resposta ao elogio de Pondé ao filme “Anticristo”.Pondé e a insustentável banalidade do ser

    No último texto vimos como Pondé, comentando o pipocão ecologético de James Cameron, acertara na mosca ao enxergar no filme traços de um fundamentalismo ecológico de fundo romântico (que ele chamou, em termos “politicamente” incorretos, de “romantismo para retardados”, o que muito nos alegrou). Contudo, no elogio que teceu ao filme de Lars Von Trier, Pondé escorregou feio no tomate e nos revelou, por assim dizer, a natureza intrinsecamente brega que povoa a alma humana. Acontece que o filme de Lars Von Trier, assim como o filosofar de Pondé, é extremamente pretencioso. Pretensão de autenticidade: assim defino o conceito de “brega” aqui aplicado ao filósofo. E ao filme, é claro. Pois Lars Von Trier, que pelo visto é muito menos astuto do que James Cameron, não percebeu que o cinema autoral morreu – ao menos nos moldes “tarkovskianos” que ele tenta ressuscitar. Insisto nesse ponto: o filme transpira “bregosidade”. Provam isso o hit de música clássica (“lascia chio pianga”, da ópera Rinaldo, de Händel) que já fora utilizado no lamentável “Farinelli” (1994) e os clichês que povoam o filme, como “a casa na floresta” e os “animais falantes”, que “resgatam o conteúdo mítico” (para usar o jargão psicanalítico pós-freudiano) das fábulas e dos contos de fadas. Se fôssemos tolos o suficiente, poderíamos agüir que os três animais mágicos seriam no fundo manifestações arquetípicas. E teríamos muito capim místico para mastigar.

    Além do mais, ainda que não fosse “intrinsecamente” brega, o filme “Anticristo” mereceria, pela própria pretensão, uma análise formal mais cuidadosa. Coisa que Pondé não faz. Em vez disso, faz alusões teológicas muito pouco precisas e por vezes incorretas. Como conciliar a “riqueza teológica” de Agostinho com a pobreza de um comentário como “sua natureza era intrinsecamente má”? Afinal, para Agostinho, como sabem os teólogos, o mal era desprovido de substância (cito: “O mal não possui uma natureza negativa, mas a perda do bem recebeu o nome de mal”, Confissões). Trata-se certamente de um deslize, afinal, Pondé não é intrinsecamente mal e parece ter lido Agostinho melhor do que muita gente. Entretanto, não custa nada recomendar-lhe mais rigor científico (e a ironia contida nessa afirmação é sintomática do próprio posicionamento do “filósofo Daslu” que é Luiz Felipe Pondé).

    Ao tentar voar com asas gigantes, ou seja, ao tentar positivar seu conservadorismo, Pondé expõe seu lado brega e se torna motivo de troça. A inexorabilidade da banalidade é tema do filme satírico “Queime depois de ler” (2008) dos irmãos Cohen. Nesse filme, que não pede nenhum tipo de crítica séria, a idiotice age como uma espécie de conceito teleológico hegeliano, provocando desenlaces patéticos e dissolvendo num mesmo caldo insosso de banalidade todas as motivações que os personagens porventura apresentem. Como uma corte diante de seu bufão, rimos de nós mesmos ao assitir ao filme dos Cohen.

    De resto, transcrevo a seguir frases pretenciosamente “poéticas” do filósofo que, como todos nós, como dizia meu tio, “às vezes põe o do Wando na vitrola”:
    O intróito:
    “Não um jardim do Éden onde a natureza é essa criação romântica sem dor, mas uma escura câmara de terror, cheia de gemidos e solidão.”

    E o Gran Finale:

    “A personagem feminina carrega em si toda a tragédia que é ter sido aquela que pressentiu o hálito do mal no mundo e em si mesma. Façamos silêncio em respeito a ela.”

    Convenhamos: “gemidos e solidão”? “Façamos silêncio em respeito a ela?” Felizmente esse oponente pode mais do que isso… estimo melhoras!


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