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Fatura

O que digo não é nenhuma novidade.

As atrocidades a que foram submetidos os índios são fatos inquestionáveis. Praticamente em todos os locais do planeta os povos indígenas sofreram violências do chamado “branco” das mais variadas formas: escravidão, roubo de terras, imposição cultural dos dominadores, quase dizimação etc.

Não fosse apenas isso, o apetite insaciável do “branco” trouxe também consequências ao habitat natural dessa população, destruindo florestas, além de poluir o ar e os rios – colocando em xeque a sua existência, pois que privada de atividades corriqueiras: caçar o quê? Pescar o quê?

Recentemente foi noticiado que parte dos 300 guarani mbyá residentes na comunidade indígena do Jaraguá, na zona norte da capital paulista, deverá se mudar para o município de Mairiporã (SP), a 37 km de São Paulo, em face da construção do Rodoanel Mário Covas.

O mesmo ocorrerá com os 300 guarani mbyá residentes em Krukutu e os 900 moradores da Aldeia da Barragem, as duas situadas em Parelheiros, ao sul do município de São Paulo. Às duas aldeias serão concedidos cerca de 150 hectares em um lugar que ainda está sendo escolhido. Aqui, a razão é ocupação crescente das terras utilizadas tradicionalmente pelos índios, decorrência do crescimento da cidade.

Estão sendo literalmente espremidos.

O que devemos a esses povos é impagável.

Mas continuamos insatisfeitos, claro.

A reportagem abaixo, do New York Times (via UOL Notícias – Internacional) dá a exata medida da questão:

25/07/2009

Devastação ambiental coloca tribos indígenas em perigo

NYT

 Elisabeth Rosenthal
No Parque Nacional do Xingu (Brasil)

Enquanto os homens jovens pintados e nus da tribo Kamayurá se preparavam para os jogos de guerra ritualizados de um festival, eles encerraram seu canto de caça ao lado da fogueira com um som de sopro – ‘uoosh, uoosh’ – uma tentativa simbólica de eliminar o odor de peixe, para que não fossem detectados pelos inimigos. Por séculos, os peixes dos lagos e rios da floresta foram a base da dieta dos Kamayurás, a principal fonte de proteína da tribo.

Mas o cheiro de peixe não é mais um problema para os guerreiros. O desmatamento e, segundo alguns cientistas, a mudança climática global estão tornando a região amazônica mais seca e mais quente, dizimando os cardumes de peixe e colocando em risco a existência dos Kamayurás. Como outras pequenas culturas indígenas ao redor do mundo com pouco dinheiro ou capacidade para se deslocar, eles estão lutando para se adaptar às mudanças.

‘Nós macacos velhos podemos suportar a fome, mas os pequenos sofrem – eles sempre pedem peixe’, disse Kotok, o cacique da tribo, que estava diante de uma oca contendo as flautas sagradas da tribo em uma noite recente. Ele vestia uma camiseta branca sobre o traje tradicional da tribo, que é basicamente nada.

Os homens kamayurás em trajes cerimoniais caminham pelo centro da aldeia - Damon Winter - The New York Times

Kotok, que como todos os Kamayurás só tem um nome, disse que os homens agora podem pescar a noite toda sem conseguir uma fisgada nos riachos onde os peixes costumavam ser abundantes; eles nadam em segurança nos lagos antes repletos de piranhas.

Responsável por três esposas, 24 crianças e centenas de outros membros da tribo, ele disse que sua existência antes idílica se transformou em uma espécie de sonho ruim. ‘Estou estressado e ansioso – isso tudo mudou muito rápido e a vida ficou muito dura’, ele disse em português, falando por meio de um intérprete. ‘Como cacique, eu tenho que ter a visão e olhar mais à frente, mas eu não sei o que acontecerá aos meus filhos e netos’.

O Painel Intergovernamental para a Mudança Climática diz que até 30% dos animais e plantas enfrentam um maior risco de extinção caso as temperaturas globais subam 2ºC nas próximas décadas. Mas antropólogos também temem uma onda de extinção cultural de dezenas de pequenos grupos indígenas – a perda de suas tradições, artes e línguas.Mulheres assam peixe para o café da manhã  - Damon Winter/The New York Times

‘Em alguns lugares, as pessoas terão que se deslocar para preservar sua cultura’, disse Gonzalo Oviedo, um alto conselheiro de política social da União Internacional para Conservação da Natureza, em Gland, Suíça. ‘Mas parte dos povos que são pequenos e marginais será assimilado e desaparecerá’.

Para sobreviver sem peixe, as crianças Kamayurá estão comendo formigas em seu esponjoso pão chato tradicional, feito de farinha de mandioca tropical. ‘Não há muitas por aqui porque as crianças as comeram’, disse Kotok sobre as formigas. Às vezes os membros da tribo matam macacos por sua carne, mas, como disse o cacique, ‘é preciso comer 30 macacos para encher a barriga’.

Vivendo nas profundezas da floresta sem transporte e pouco dinheiro, ele notou, ‘nós não temos como ir ao mercado para comprar arroz e feijão para complementar o que está faltando’.

Tacuma, o velho e sábio pajé da tribo, disse que a única ameaça da qual se recordava que rivaliza a mudança climática foi o vírus do sarampo, que chegou às profundezas da Amazônia em 1954, matando mais de 90% dos Kamayurás.

Céu estrelado sobre o Parque Nacional do Xingu  - Damon Winter/The New York Times

As culturas ameaçadas pela mudança climática se espalham por todo o mundo. Elas incluem as dos moradores da floresta tropical como os Kamayurás, que enfrentam a redução da oferta de comida; comunidades remotas do Ártico, onde as únicas estradas eram os rios congelados que agora estão fluindo quase o ano todo; e os moradores de ilhas de baixa altitude, cujas terras estão ameaçadas pela elevação do nível dos mares.

Veja álbum de fotos especial sobre os kamayurás

Muitos povos indígenas dependem intimamente dos ciclos da natureza e tiveram que se adaptar às variações climáticas – uma estação de seca, por exemplo, ou um furacão que mata os animais. Mas em todo o mundo, a mudança é grande, rápida e implacável, seguindo em uma única direção: um clima mais quente.

Assentamentos de esquimós como Kivalina e Shishmaref, no Alasca, estão ‘literalmente sendo levados pelas águas’, disse Thomas Thornton, um antropólogo que estuda a região, porque o gelo marítimo que antes protegia suas costas está derretendo e os mares ao redor estão subindo. Sem esse gelo duro, fica difícil, quando não impossível, caçar focas, a base da dieta tradicional.

Alguns grupos esquimós estão processando os poluidores e países ricos, exigindo indenização e ajuda para se adaptarem. ‘No entender deles, eles não causaram o problema e o estilo de vida deles está sendo ameaçado pela poluição dos países industrializados’, disse Thornton, que é um pesquisador do Instituto para Mudança Ambiental da Universidade de Oxford. ‘A mensagem é que isto afeta pessoas, não apenas ursos polares e a vida selvagem’.

Nas negociações para o clima em dezembro, em Poznan, Polônia, a ONU criou um ‘fundo de adaptação’ por meio do qual os países ricos poderiam, em teoria, ajudar os países pobres a se ajustarem à mudança climática. Mas as contribuições são voluntárias e até o momento não ocorreu nenhuma, disse Yvo De Boer, o secretário-executivo da Convenção das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas. ‘Ajudaria se os países ricos pudessem assumir compromissos financeiros’, ele disse.

Por toda a história, a resposta final tradicional para as culturas indígenas ameaçadas por condições climáticas ou conflitos políticos dos quais não podem se defender é se mudarem. Mas hoje, a mudança frequentemente é impossível. As terras que cercam os nativos geralmente estão ocupadas por uma população global em expansão, e grupos antes nômades frequentemente são assentados, construindo casas, escolas e até mesmo declarando independência.

Para os Kamayurás, as opções parecem limitadas. Eles vivem no meio do Parque Nacional do Xingu, um vasto território que antes ficava nas profundezas da Amazônia, mas agora é cercado por fazendas e sítios.

Cerca de 13 mil quilômetros quadrados da floresta Amazônica são desmatados anualmente nos últimos anos, segundo o governo brasileiro. E com muito menos folhagem, há menos umidade no ciclo regional da água, causando imprevisibilidade às chuvas sazonais e deixando o clima mais seco e mais quente.

Isso alterou os ciclos da natureza que há muito regulavam a vida dos Kamayurás. Eles acordam com o sol e não têm refeições estabelecidas, comendo sempre que estão com fome.

Os cardumes de peixes começaram a encolher nos anos 90 e ‘entraram em colapso’ desde 2006, disse Kotok. Com as temperaturas mais quentes e menos chuva e umidade na região, os níveis das águas dos rios estão extremamente baixos. Os peixes não conseguem chegar aos seus locais de procriação.

No ano passado, pela primeira vez, a praia no lago ao lado da aldeia não ficou coberta de água na estação chuvosa, inutilizando o método da tribo de pegar tartarugas, colocando alimento nos buracos que são enchidos de água, atraindo os animais.

A agricultura da tribo também sofreu. Por séculos, os Kamayurá realizaram seu plantio de verão quando uma certa estrela aparecia no horizonte. ‘Quando ela aparecia, todos celebravam porque era o sinal para começar a plantar mandioca, já que a chuva e o vento viriam’, lembrou Kotok. Mas desde sete ou oito estações atrás, a aparição da estrela deixou de ser seguida por chuva, uma divergência nefasta que forçou a tribo a se adaptar.

De lá para cá tem sido um jogo que muda constantemente de tentativa e erro. No ano passado, as famílias tiveram que plantar sua mandioca quatro vezes – ela morreu em setembro, outubro e novembro porque não havia umidade suficiente no solo. Apenas em dezembro é que o plantio vingou. O milho também fracassou, disse Mapulu, a irmã do cacique. ‘Ele brotou e murchou’, ela disse.

Uma especialista em plantas medicinais, Mapulu disse que a raiz que ela usava para tratar diarréia e outros males se tornou quase impossível de achar porque a flora da floresta mudou. O vegetal que usam para amarrar as vigas essenciais de suas ocas também se tornou difícil de encontrar.

Mas talvez o maior temor dos Kamayurás seja os novos incêndios florestais do verão. Antes úmida demais para pegar fogo, a floresta aqui está inflamável devido ao clima mais seco. Em 2007, o Parque Nacional do Xingu enfrentou pela primeira vez um incêndio, que destruiu milhares de hectares.

‘Todo o Xingu estava queimando – aquilo feria nossos pulmões e olhos’, disse Kotok. ‘Não tínhamos para onde escapar. Nós sofremos juntamente com os animais’.

Tradução: George El Khouri Andolfato”.

Clique aqui para ver reportagem original.

© Cartas de Tiro

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