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Para não se esquecer. E para se esquecer.

Em geral, para as festas do réveillon, costumo ir à Ilha Comprida, município litorâneo do Vale do Ribeira, bem ao sul do Estado de São Paulo.

Trata-se de um local bastante privilegiado sob a ótica da natureza (inclusive a Ilha é declarada área de proteção ambiental [APA], de interesse especial, com reservas ecológicas e áreas de relevante interesse ecológico [ARIE]). Só para se ter uma idéia, são 74 km de praias. E, bem próximo dali, ao norte, está a estação ecológica da Juréia, verdadeiro santuário do que resta ainda de mata atlântica no Estado. Ao sul, Cananéia e a Ilha do Cardoso.

Ilha Comprida - Boqueirão Sul (google.images.com.br)  Ilha Comprida (google.images.com.br)

A minha hospedagem ocorre, sempre e sempre, na ótima Pousada Icaraí (sem dúvida a melhor do local), cujos proprietários são os adoráveis amigos Naia e Sady Previtalli, pais do Duda, pessoa conhecida de muitos dos convivas deste blog. Gente da melhor qualidade, que sabe acolher. Competentes. E, friso, hospitaleiros.

Na última vez que estive por lá – e isso já dista 8 longos meses – testemunhei algo que me causou forte indignação: simplesmente o Município estava apinhado de lixo, basicamente doméstico.

Justificativas, claro, as mais variadas. Mas talvez a principal seguia a linha de que, ao final de mais uma legislatura (2005/2008), os contratos de coleta de lixo com as empresas não haviam sido renovados. Ou seja, um descalabro.

JM/Arquivo Pessoal (3/1/2009)Isso fez com que o lixo se acumulasse nas vias públicas durante dias – os caminhões de coleta simplesmente não “passavam”. Emergencialmente, o Prefeito que assumira colocou alguns veículos para tal fim, tentando dar conta do atendimento da demanda acumulada.

Diante de tal situação e do fato à sua porta, a alternativa encontrada pela comunidade foi a de que, ela própria, faria o serviço cuja obrigação, evidentemente, é do Poder Público – afinal, arcam com tributos, nem sempre de natureza leve, cuja receita também deve custear a prestação dessa atividade.JM/Arquivo Pessoal (3/1/2009)

Os comerciantes locais, de praticamente todos os ramos, foram à luta e saíram a “catar” lixo.

Naia e Sady, por exemplo, munidos de rastelo, pá, sacos de lixo, dirigiram-se à praia, mais de uma vez, nas primeiras horas da manhã, acompanhados de outros, para limpá-la. Fizeram isso não só por seu amor incondicional à Ilha, mas também para garantir que nós, turistas, tivéssemos o máximo conforto possível – no caso, conforto sanitário.

É bom que se diga que, pelo fato da Ilha ser considerada uma APA, com todas as suas especificidades, os resíduos sólidos merecem tratamento diferenciado. Mas tudo isso, como se vê, não foi levado em consideração.

Não, não se trata de um enfeite natalino (JM/Arquivo Pessoal - 3/1/2009) Não posso deixar de mencionar o que estabelece a Lei federal nº 9.985, de 18/7/2000, que, dentre outras providências, institui o Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza. Ali, quanto às APA’s (como dito, hipótese da Ilha Comprida), assim está definido:

Art. 15. A Área de Proteção Ambiental é uma área em geral extensa, com um certo grau de ocupação humana, dotada de atributos abióticos, bióticos, estéticos ou culturais especialmente importantes para a qualidade de vida e o bem-estar das populações humanas, e tem como objetivos básicos proteger a diversidade biológica, disciplinar o processo de ocupação e assegurar a sustentabilidade do uso dos recursos naturais”.

O dispositivo legal não passou de letra morta.

Os urubús, presença constante (JM/Arquivo Pessoal - 3/1/2009)

Não há a menor dúvida que todos esses fatos são enquadráveis como crimes ambientais, conforme definidos na Lei federal nº 9.605, de 12/2/1998. Mas não tenho notícia de que qualquer pessoa tenha sido admoestada por isso.

População local que "vive do lixo" (JM/Arquivo Pessoal - 3/1/2009)

Atualmente, segundo soube, a situação melhorou bastante, o que é uma boa notícia.

Seja como for, a Ilha Comprida necessita de um reforço no que toca a políticas públicas voltadas à coleta seletiva de lixo e ações que visem a sua reciclagem.

E mais: políticas educacionais voltadas, primeiro, à própria população, com o fim de se fazer compreender a importância do correto descarte de resíduos, aliada à vocação turística do Município; e segundo, informar e educar o turista, que, lamentavelmente, muito contribui para a degradação, em especial das praias.

Não podemos esquecer que a Ilha é um santuário, cercada por outros santuários. A luta pela sua preservação é algo que não pode, jamais, esmorecer.

E que não se repita, sequer tangencie, nem agora, nem nas próximas temporadas, nem em tempo algum, esses lamentáveis episódios. Conto com a responsabilidade e o bom senso das autoridades para o mais correto planejamento.

Afinal, a Ilha Comprida É o que a gente vê nas duas primeiras fotos deste post.

E que não pertence a ninguém em especial; não pertence a políticos nem a partidos políticos; ela é difusamente nossa.

Uma coisa só, para finalizar: não quero mais sentir a sensação (triste) que tive ao ver o “Seo” Dito (um ilha compridense e uma espécie de “faz-de-tudo” da Pousada Icaraí), enquanto gentilmente me ciceroneava pela Ilha para a busca das imagens aqui colocadas, com o olhar vago e perdido – sem pronunciar uma única palavra -, como a indagar: “o que está acontecendo com o local aonde nasci?”.

O "Seo" Dito (EP/Arquivo Pessoal)

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6 Responses to “Para não se esquecer. E para se esquecer.”


  1. 1 Eduardo Previtalli
    agosto 2, 2009 às 17:35

    João, parabéns pela publicação, pois nos revela a vergonha e descaso com a comunidade e a população, bem como os turistas que chegam lá com dinheiro para movimentar a industria do turismo (que é a unica industria permitida numa APA), e recebem da cidade um monumento de lixo como cartão postal.

    Descaso e irresponsabilidade…sem fim. No ano passado os banheiros das praias estavam entupidos e vertendo esgoto. Ninguém merece esta situação, que torcemos para que não repita mais. A Ilha é impar em belezas naturais, temos todos que protegê-la.

    E só esqueceremos destes fatos qdo eles não ocorrerem mais.

  2. 5 Eduardo Previtalli
    agosto 29, 2009 às 19:04

    João, veja este vídeo que saiu na Globo sobre o lixão da Ilha Comprida.

    http://sptv.globo.com/Jornalismo/SPTV/0,,MUL1255198-16577,00.html

  3. agosto 29, 2009 às 20:13

    Eduardo

    Trata-se de um importante complemento.

    Super obrigado!


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