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jul
09

Mais do Gilmar

É preciso divulgar.

Com todo o respeito, Lula tem boa dose de culpa nisso.

Nelson Jobim não dá.

Vamos ao artigo de Leandro Fortes, diretamente de seu blog:

Um grampo, uma farsa

01/o7/2009

No dia 2 de setembro de 2008, o diretor-geral da Polícia Federal, delegado Luiz Fernando Corrêa, foi ao gabinete do presidente do STF, ministro Gilmar Mendes. A tiracolo, levava dois outros delegados, William Morad e Rômulo Berredo, designados por ele para investigar a denúncia de participação da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) em um grampo telefônico montado nas linhas de Mendes e do senador Demóstenes Torres, do DEM de Goiás. A denúncia, feita pela revista Veja, insinuava a participação direta do delegado Paulo Lacerda, então diretor-geral da Abin, na escuta telefônica ilegal. A revista trazia, a título de prova, uma transcrição aleatória, provavelmente psicografada, de uma conversa angelical entre o ministro e o senador. Talvez tenha sido a revelação de grampo mais telúrica da história do jornalismo investigativo brasileiro. Uma espécie de eu-te-amo-tu-me-amas montado, sob medida, para a dramática sequência de atos que viria a seguir.

O gesto do diretor-geral da PF, ao levar os delegados à presença de Gilmar Mendes, já é passível de uma análise crítica e, no fim das contas, desanimadora, sobre o patamar civilizatório de nossas instituições republicanas. Além do quê, correu-se um risco tremendo. E se Mendes não gostasse deles? Se os achasse, sei lá, com jeito de gângsteres? Felizmente, a escolha foi do gosto do ministro. E por que não seria? Um dia antes, em 1º de setembro de 2008, Paulo Lacerda havia sido afastado da Abin, de forma sumária e humilhante, com base em uma mentira perpetrada por um ministro de Estado. E não um ministro qualquer, mas Nelson Jobim, da Defesa, responsável pelo comando das três forças armadas.

Jobim, ex-ministro da Justiça de Fernando Henrique Cardoso, apadrinhou a indicação de Gilmar Mendes ao STF. Jobim é professor do IDP, a escola de Gilmar Mendes. Jobim inventou que a Abin havia comprado, por meio do Exército, um aparelho capaz de fazer escutas telefônicas. Foi desmentido pelo Exército. Foi desmentido pelo Gabinete de Segurança Institucional. Foi desmentido pela Polícia Federal. Jobim e Mendes são amigos.

Pano rápido.

Para quem não se lembra, Paulo Lacerda estava no rol de inimigos do presidente do STF desde 2006, quando a Polícia Federal havia vazado uma lista relativa à Operação Navalha, na qual constava o nome ‘Gilmar Mendes’ como beneficiário de presentes dados a autoridades pelo empreiteiro Zuleido Veras, da construtora Gautama, envolvida num esquema mafioso de fraudes de licitações públicas. O ministro afirmou se tratar de um homônimo, mas, desde então, jurou vingança a Lacerda. A matéria da Veja, dois anos depois, lhe serviu de espada.

Possesso, violentado em sua intimidade telecomunicante, Mendes lançou as bases de um discurso progressivo sobre a existência de um ‘Estado policial’ no Brasil, um mundo dominado por grampeadores malucos, um exército de arapongas a escutar sussurros e cochichos de Deus e o mundo, capitaneados, é claro, por Paulo Lacerda. Diante de tamanha gravidade institucional, Mendes chamou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva às falas. E este, além de ir, também afastou Lacerda e o manteve, por três meses, escondido em uma sala carcomida no subsolo do Palácio do Planalto, inaugurando, assim, uma nova modalidade de detenção, o cárcere funcional. Em seguida, já informado da fraude da qual havia sido vítima, era tarde demais, e Lula havia perdido a condição política de reconduzir Lacerda à Abin. Despachou-o, então, para o desterro, em Lisboa.

Pois bem, leio, hoje, dia 1º de julho de 2009, na Folha de S.Paulo, que a investigação da PF sobre os grampos não deu em nada. Nada. Dez meses de um inquérito tocado por dois delegados, conforme pedido expresso do presidente da República, sobre um grampo feito nas linhas do presidente do STF e de um senador da República. Nada. 300 dias para descobrir o que já se discutia abertamente nos jardins de infância das escolas municipais brasileiras, na hora da merenda: um grampo sem áudio é uma farsa. Uma farsa que serviu-se da invencionice do ministro Jobim, provocou uma crise institucional, submeteu o presidente Lula a um constrangimento político e promoveu o assassinato da reputação de um homem de bem, o delegado Paulo Lacerda.

Um deboche e um vexame”.

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2 Responses to “Mais do Gilmar”


  1. 1 Edu Pedrasse
    julho 20, 2009 às 23:30

    Acompanhei de perto esta história, nos Blogs do Azenha e do PHA.
    Bandalhismo puro.

    Lula foi um frouxo. Não resta dúvida. O Capataz do engenho ainda reluz e já está introjetado no subconciente do brasileiro. Não precisa vir de fora. O medo-servil já é genuíno. E está em todo lugar.

    Estes dias recebi um e-mail nazista, encaminhado por um querido primo da família…

    Hoje no fim da tarde, ao tomar um expresso na padoca, tive a infelicidade de me sentar ao lado de três idiotas, “balzaquianos” que discutiam monitoração de alarmes de loja por laptop. O tom da conversa era de caçada ao lado “negro” da força, se é que vc me entende.

    Noves fora meu niilismo penso que a coisa é geral, está no código genético do brasileiro.

    Talvez precisemos de quatro séculos para regenerar, já que levamos quatro para denegrir. E convém lembrar, muito sangue correu nos troncos e ocas.

    “Virá! Impávido como Muhamadali…

  2. julho 21, 2009 às 21:55

    Edu

    De fato, é uma bandalheira.

    Mas, confesso que esperava, com relação ao episódio, um pouco mais de Lula.

    Nenhum ajuste político – ou acordo, se preferir – justifica tanta covardia.

    Nem os 400 anos da capatazia.

    Mas, passados outros 400 – é uma pena, mas parece que de fato será preciso todo esse tempo (e tomando emprestada a tua idéia), a luz brilhará,
    e aquilo que nesse momento se revelará aos povos
    surpreenderá a todos não por ser exótico
    mas pelo fato de poder ter sempre estado oculto
    quando terá sido o óbvio
    “.


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