Fazendo uma varredura em meus e-mail mais antigos, encontrei um transmitido a mim por um amigo jornalista, meu caro Volmer. E o assunto era (e ainda é) dos mais candentes -a mim, ao menos-, que abordava alguns tópicos relativos à questão palestina, o “direito” sobre Jerusalém e outros correlatos. Estranhei, de certa forma, por ser o Volmer quem é, o conteúdo do e-mail, como poderá ser percebido na resposta que transcreverei abaixo.

É importante deixar claro que a resposta, verdadeiramente, independe do fato d’eu ser neto de um libanês, nascido em Marjaayoun (مرجعيون), ao sul do país, próximo das colinas de Golan. Diz a lenda familiar que o tronco está ali estabelecido – isso mesmo, estão ali, ainda – há cerca de 500 anos, numa aldeia.

Meu avô, que nasceu Cehlem e morreu José, chegou em terras brasileiras no início do século XX, para tentar algo melhor. Como mascate começou, em especial na região de Itapetininga e Tietê, cidades do interior paulista. Tenho conhecimento, por história oral, que meu avô transitava ali e acolá com um vendedor de banha que acabou por formar um império, um “tal” de Matarazzo.

Fez fortuna com o café. Tinha duas fazendas com as mudas (o sino da capela de uma delas está comigo, em casa). Mas praticamente faliu, segundo as mesmas fontes da genealogia, com sacas e sacas de café desprezadas e queimadas no Porto de Santos, por conta da crise mundial de 1929. A casa de meus avós, na cidade de Tietê, era espetacular: escadas de mármore europeu, vitrais, salas de música com pianos alemães, paredes inteiramente pintadas com motivos barrocos. Enfim, um sonho. Mas, the dream is over, diante de tantos interesses heterogêneos (tiveram 10 filhos) a se administrar.

Dito isso, reafirmo que a resposta nada tem a ver com a pequenina história que acabo de contar – com extensão, portanto, às origens de meu avô. Escrevi ali o que basicamente penso acerca de alguns pontos relativos à questão palestina. Não há nada que justifique, afora os valores inerentes à imperfeição humana, os obstáculos que são impostos – especialmente por Israel e aceitos por seus asseclas – a esse povo (inclusive um muro, ao melhor estilo pós-Segunda Grande Guerra Mundial [em território palestino, é bom frisar]), que quer ter o direito de viver num país, num Estado legitimamente formado e reconhecido.

Assim disse ao camarada:

Volmer,

não sei… Acho que não concordo muito com sua visão.

A questão envolve o direito – diga-se de passagem, legítimo – de determinação, de resistência de um povo.

Meu amigo, não tem sentido o que está acontecendo. Quero saber o que você acharia do Brasil não respeitar suas fronteiras e sair invadindo territórios por aí. Por acaso és um neo-colonialista? (Desculpa aí, brincadeirinha…).

Meu caro, Israel faz o que quer, aonde quer e quando quer, e o pior, ninguém faz algo para impedir. Ficamos assistindo tudo, atônitos, impotentes.

Os EUA, por muito menos, invadiram países. Ai de nós se desrespeitarmos uma Resolução da ONU. Israel não respeita nada. Israel simplesmente se basta.

Jerusalém é indivisível, dizem os judeus. Mas o que é infantil (para usar suas palavras), é a postura ‘Jerusalém é minha, Jerusalém é minha, JERUSALÉM É MINHAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA’, desprezando o fato mínimo de que a cidade é sagrada ao menos para mais duas religiões, sendo uma delas a que tem como seu rebanho a maioria dos habitantes deste Planeta. Jerusalém é magnífica até para os ateus, meu amigo. Como lidar com um povo que não aceita isso? (Ah, bom, desculpe, tinha esquecido que Jerusalém é deles).

Dizem até – true or false? – que foram os filhos de Israel que construíram o Pentágono. Se for verdadeiro, diga-me, o que podemos fazer com eles? Conseguiremos fazer com que eles aceitem o fato de que não são donos das terras por eles invadidas? E, claro, me refiro no mínimo às fronteiras existentes antes da Guerra dos Seis Dias.

Está morrendo muito mais gente do que podemos pensar, o que é lamentável, inaceitável.

Sharon, que está sendo processado por crimes contra a humanidade, pelo que fez em Sabra e Chatila – com que moral ele critica Arafat? – não gosta de palestinos ao ponto de desejar o seu extermínio. Sinceramente penso isso.

Lembra-se dos métodos do Führer?

Um abraço.

João Macruz

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